Sombras. É assim desde que se tem notícia, ou desde que os Senhores Durhfein tomaram posse de tais terras. O céu parece sempre enevoado, como que se propositadamente tampasse o sol para que pouca luz lhe tocasse o solo. Talvez por isso, e não somente, a produção de alimentos no feudo seja escassa. Os longos prados e colinas, a noroeste das terras, possuem uma grama rasteira e pouco esverdeada, de aparência sombria. A vegetação segue rasteira, e pastos começam a se formar, evidenciando uma das vocações do feudo: a criação de animais. Um casebre aqui, outro acolá, rebanhos de bovinos e ovelhas em quantidade. Uma pequena vila se desenha na região central do feudo, onde há movimento de pessoas provenientes de todas as regiões vizinhas. Lá as trocas de mercadorias e alimentos acontecem, bem como um pequeno mercado de artesanato. Seguindo um pouco mais a leste, se encontra o casarão dos Durhfein. Primeiramente um grande portão, ladeado por muros de pedregulhos acinzentados e musgo em sua encosta circundam todo o imenso jardim. Uma estrada segue do portão, curvando-se à direita, em direção a uma fonte, cujo afresco central é a figura de um homem, de olhar voltado aos céus, e aos seus pés dois lobos, de cujas bocas jorravam água límpida e brilhante. Há ainda, em todo redor da fonte e estrada, arbustos formando uma espécie de labirinto, com pequenos tijolos de pedras entre eles. Estátuas de homens se espalham pelos jardins, rostos austeros, cada qual sempre esculpido com um animal aos pés e uma árvore frondosa ao redor. Entalhes de seus nomes podem ser lidos no suporte de cada estátua: são os Senhores Durhfein.
Da fonte estendem-se duas vias: uma delas, tortuosa e quase apagada pelo desuso, segue-se distante ao norte até uma espécie de coreto. Árvores de copas densas e altas o rodeiam, e há plantas trepadeiras em todo seu parapeito. Por detrás do coreto, a poucos passos, uma estátua cujo rosto foi arrancado, mas percebe-se ser uma mulher, com os braços estendidos com que em entrega, o vestido longo de pedra se misturando ao chão, sendo carcomido pelo tempo e vegetação rasteira. Aqui uma espécie de névoa encobre a atmosfera durante todo o dia, fazendo com que o local fique despercebido por quase todos que aqui passam. Uma parte que parece ter sido abandonada ou esquecida...
A outra via, mais larga, leva direto ao casarão dos Durhfein. O casarão é imenso, há uma escadaria central que leva a uma porta de madeira larga, dividida em duas partes, cada qual com um rosto demoníaco esculpido e uma argola de metal dourado, servindo de batedouro. De um lado a outro da porta seguem-se amplas janelas, cujos vitrais parecem formar desenhos que nos prendem a atenção, fervilhando o imaginário à primeira vista. No segundo piso mais janelas, desta vez menores e limpas, com vidros inteiriços, mas as cortinas internas impedem a visão de qualquer detalhe da parte de dentro. O telhado aparece pontiagudo, seguindo o padrão das construções européias, sendo que na parte direita do casarão ergue-se uma torre de tijolos, alta. Notam-se poucos orifícios de entrada de ar, a não ser em seu cume, onde ela se alarga e parece existir um aposento pelas dimensões e luz laranja que emana toda noite de suas janelas, com as cortinas soltas pelo lado de fora, tremulantes.
O rio Velho Andor, que entrecorta de um lado a outro os domínios dos Senhores Durhfein tem nessas terras águas turvas, e a cada dobra, seguindo sempre ao sul, parece se adensar em profundidade e força. Seu leito é percorrido por longas extensões de areia, onde o rebanho do feudo parece descansar. Há, ainda, no meio do curso do rio, uma vertente que se segue ao oeste, um pequeno fio de água que vai se tornando mais limpo e encorpado, amparado por um pequeno desfiladeiro rochoso, até desaguar em cachoeira, conhecida como Queda Melodiosa, por sua sonoridade característica, similar ao canto triste, porém belo, de alguma jovem dama arrebatada por um amor impossível. A Queda, por sua vez, deságua numa pequena lagoa, também chamada Alvaluz. A água cai forte nos rochedos e pedregulhos no pé da lagoa, respingando e formando uma cortina d’água que vai se deitando suave ao distanciar-se da queda. Existe um pequeno caminho, à direita, forjado ao longo dos anos pela força das águas, em meio às pedras, formando uma escadaria que vai do meio da cachoeira, descendo sinuoso até o pé da lagoa. Aqui a vegetação cresce mais bela, e há flores de tons laranja e azuis nascendo por entre brechas de rocha, misturadas à grama e a pequenos dentes de leão. A água reluz durante o dia um dourado ouro, mesmo com a dificuldade que o sol sente em mostrar-se na região, e à noite, o luar é mítico, e os vagalumes compõem o cenário deixando o traço de sua luz no ar, misturado à melodia harmoniosa da queda d’água ao lado. É sabido em toda região que os arredores de Alvaluz são proibidos, por ordens dos Senhores Durhfein. Muitos mitos e dúvidas acercam esse tema. Há os que dizem, à boca pequena, que o local é reservado para rituais e feitiçarias. Há aqueles que dizem simplesmente ser mais uma excentricidade de seus senhores e, ainda, alguns antigos que alegam haver um romance, a história de uma mulher encontrada nesse lago, cuja história foi-se apagada pelo tempo da mente dos homens, mas não de seus senhores. Mitos, lendas, histórias que enchem o coração dos homens, passando de geração em geração, ao lado das clareiras nas reuniões familiares ou sorvidas de largos tragos de cerveja nas tavernas das redondezas. E assim se espalha a fama do feudo de Catedália.
A vertente principal do rio segue até findar-se no sul das terras, encontrando-se com o começo de uma floresta. A floresta densa que delimita os domínios do feudo também carrega consigo uma aparência sombria, onde a quietude em seu arredor se funde com o sentimento de medo, e histórias sobre todo o tipo de acontecimentos inexplicáveis na floresta saltam dentro do feudo e em seus vizinhos. O ar dentro da floresta parece mais pesado, morto, estático. Poucas vezes é possível ouvir o farfalhar das folhas, e talvez assim seus visitantes prefiram, pois o vento que surdinamente corta o seio da floresta é sempre gélido, capaz de arrepiar o mais fundo da alma, envolto em lendas de que carrega consigo a dor e o sofrimento daqueles que morreram em seus braços. As árvores aqui parecem mais antigas, ressequidas pela ação do tempo e retorcidas em si mesmas, como se agonizassem pela eternidade. Suas copas, altas, formam uma camada quase impenetrável pelo Sol em toda extensão da floresta, e raros são os feixes de luz que se vêem atingindo o solo, sempre úmido e repleto das folhagens caídas das árvores. Estranho que à noite as copas parecem abrir-se, pois a Lua torna-se visível em quase todos os pontos da floresta, bastando olhar em direção ao céu para encontrá-la. Sua luminosidade acaba tingindo de prata toda a folhagem, seja ainda nos galhos emaranhados ou no solo, criando um efeito cintilante, belo. Os troncos das árvores ajudam a compor esse efeito, já há tempos sem o vigor marrom e esverdeado de sua juventude. O prateado, iluminando um pouco das entranhas da floresta que parece preferir a noite. Dizem que os incautos, atraídos pela beleza que a floresta exibe noturnamente, acabam se tornando suas vítimas, e servindo de alimento aos lobos, os únicos seres que parecem estar em comunhão com a floresta. Há relatos de que estes somente atacam as vítimas quando elas estão inebriadas pelo cintilante prata da floresta, como se lobos e floresta agissem de comum acordo, favorecendo ainda mais os mitos sobre Prata da Noite, como assim a floresta ficou conhecida.
Esses são os domínios dos Senhores Durhfein.